Estou a escrever-te e digo-te que és tão especial para mim e que morro de saudades tuas. Recordo todos os momentos contigo a meu lado. Todas as brincadeiras. Todas as diversões. Todas as maluquices. Todas as conversas. Tenho pena que tenha acabado desta forma, ainda que tudo esteja tão vivo dentro de mim. Tenho medo. Cada vez mais. Medo de te esquecer. De me esquecer de tudo. Para lembrar-me do teu rosto tenho que fazer um esforço, passaram oito meses desde que foste embora deste mundo cruel e injusto, (ou injusto e cruel é o mundo onde estás agora?), oito meses e já tenho que fazer um esforço para me relembrar? Passei estes quinze anos contigo e em oito meses já começo a esquecer tudo? Outra injustiça, é so mais uma a juntar à caderneta da vida. E se acontece? E se me esqueço de tudo totalmente?
Eras sempre o fotografo, sempre o que filmava. Porque tu? Devo ter uma dezena de fotos tuas, apenas. E daquelas tiradas nos casamentos, pelos fotógrafos da treta. Não há nenhuma casual, nenhuma “daqueles momentos” tio. Tenho tanta pena.
Não sei onde estás agora. Não sei se me vês, se me ouves, se me tentas tocar. Não sei se apenas estas debaixo de terra e tudo acabou assim. Eu não sei. Talvez seja melhor assim. Mas também, saber de mais uma injustiça não iria mudar nada praticamente.
Em Janeiro, após o natal e o ano novo, ficaste doente. Pensavam que era gripe A, era a moda na altura, então, não nos deixavam aproximar. A partir dos primeiros dias desse mês, não te vimos mais, nenhum de nós, nenhum dos “putos” . Foste para o hospital, recebi a notícia e acalmei-me, uma vez que sabia que estavas melhor assim, podias ter ido mais cedo, mas eras tão teimoso e detestavas hospitais. Eu compreendo, passaste a maior parte da tua vida lá. Fiquei descansada. Já tinhas passado por tantas coisas piores, aquilo nada era para ti. Passavas o obstáculo com uma perna às costas. Mas enganei-me. Numa quinta, de manha, eu estava a ter Educação Física na escola e a minha mãe entra no pavilhão. Olhei para ela, chorava. E eu senti uma paz dentro de mim como nunca tinha sentido. Não sei explicar a sensação. Nunca senti nada igual. Ainda hoje não entendo esse sentimento. Comecei a rir-me, e assim o fiz até casa. Não acreditei no que ela me dizia e disse-lhe para não brincar com os meus sentimentos. Realmente, uma pessoa nervosa não tem noção do que faz e diz. Abri a porta. E vi então o meu pai a chorar, como nunca o tinha visto. Acordei para a realidade. Caí em mim e sim, aí apercebi-me de tudo. Abandonaste este mundo, abandonaste quem te queria o melhor. Senti raiva, ódio, senti fúria, durante muitos dos meses que se seguiram. Não aguentaste, tinhas gripe A, tinhas pneumonia e tudo porque apanhaste uma constipação de Janeiro. Maldita Leucemia. Sobreviveste a tanto mais, a tanto mais. 6 de Janeiro, o dia da tua morte. Não te despediste. Era tudo o que eu queria, uma despedida. Um abraço, o último.
Tenho tantas saudades meu tio, tantas. Volta, não adianta dizer isto, eu sei, mas volta. Estas palavras fazem-me ter um pouquinho de esperança.
Foste feliz. Fomos por te ter. Somos por te ter tido.
A vida é mesmo assim, não é?
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